5.8.09

Stick a bush

Vamo que vamo… do jeito que da! Este tempo de ausencia relatando minha vida foi porque muita coisa rolou e sentar pra escrever tem sido fato raro, e trabalhoso. Isto eh, nao eh falta de assunto o problema, dessa vez culparei a logistica envolvida. Como na Nova Zelandia nao se fala nem se escreve portugues, a missao em atualizar o blog consiste em escrever tudo, colocar todos os acentos e cedilhas e, ai sim, publicar. Mais o fato de que nao tenho computador pessoal, obrigando-me a ir em cybercafés. Hoje resolvi publicar tudo assim, tosco.
JJJ
No ultimo relato descrevi as ultimas neves do inverno passado. Agora estamos com as montanhas brancas de novo e todo mundo louco pra esquiar. Nao faz muito frio esse ano, algo entre 5 e 10 graus, em media, durante o dia. Eh tambem a primeira temporada que faco snowboard, um esporte que tem me fascinado pela sensacao que proporciona. Liberdade ativa em velocidade extrema, conexao simples mas intensa com a natureza e muito estilo. Aprender a descer uma montanha cheia de neve consiste em muitas quedas, risco de lesao e dores em lugares que voce nem sabia que existia. Minha dica eh que se alguem um dia te chamar pra ir pra montanha, nao perca a chance. E use capacete.
SS
Quando eu tinha uns 20 anos, tive meu primeiro e unico carro, um fusca branco. Lembro que sempre deixava a gasolina acabar, porque nao me dou bem com essas maquinas. Depois disso, so bicicleta e moto. Mes passado, meu amigo Jon estava indo embora pra Australia e perguntou se eu queria ficar com sua van e pagar nos proximos meses. Nada mal. Aceitei a proposta e tomei posse de uma van vermelha, ja batizada de Phoenix, que com cama e cozinha vai ser minha casa quando esquentar de novo. Ainda nao aceitei direito a ideia de queimar combustivel, mas nao vou virar escravo da gasolina, prometo.
SSS
Jon, alias, foi a primeira pessoa que conheci no Hangdog, um camping que fica a poucos metros de uma reserva onde estao inumeras paredes de calcario e eh frequentado por escaladores do mundo todo. Passei 3 semanas inesqueciveis e celebrei meu aniversario com escalada na beira do mar, pizza, fogueira e musica. O nome da reserva eh Paynes Ford, com mais de 10 setores que variam de 10 a 60 metros de altura e esta a alguns minutos da pequena cidade de Takaka, famosa pelo estilo hippie de seus habitantes. Alem das muitas escaladas, o dia-a-dia no Hangdog era preenchido por muita musica, principalmente Neil Young e reggae, grande parte tocada por 3 musicos israelenses. A slackline tambem estava sempre esticada, a fogueira nos aquecia de noite e uma otima sensacao de familia, onde todos cuidavam de todos e as refeicoes eram feitas em grupo. Ali nasceu o estilo STICK A BUSH de se viver.
SSSSS
Um dos grandes amigos que ja fiz na vida, Tibum, estava prestes a ir de volta pra Franca, depois de 7 meses, e iria encarar 850km de carona ate Auckland. Resolvi ir com ele e convenci Bob, da California, a ir junto. Desde o momento em que deixamos o Hangdog ate chegarmos na maior cidade neozelandesa parece que tudo aconteceu como magica, feito um sonho mais que perfeito. Estavamos repletos de alto astral e contagiavamos as pessoas que conheciamos. O primeiro trecho foi ate Nelson, que cumprimos com 3 caronas. No dia seguinte, apos dormirmos no sofa de um albergue, atravessamos o estreito que divide as duas ilhas e chegamos em Wellington.
SSS
Passamos duas noites na casa de um frances e a partir dali seguimos uma dieta estrita de arroz integral, frutas e castanhas. Em parte por ser uma alternativa economica, mas tambem pela desintoxicacao. Mais 3 caronas e chegamos em Bulls. Estavamos os tres sentados na calcada comendo arroz integral e, sem grandes esperancas, levantei e coloquei meu polegar em acao (aqui se pede carona com a mao esquerda), em cerca de cinco minutos um carro vermelho encostou e li o adesivo no vidro traseiro: 100% Angel. Perguntamos onde ele estava indo, a resposta foi: Nao sei, e voces? Dissemos que rumavamos norte, sentido Lago Taupo. Mostramos no mapa e ele topou seguir naquela direcao, ja que tinha acabado de comprar o carro e estava realmente sem destino, viajando por 2 semanas pelo pais.
DDD
Dormimos aquela noite na casa de uns amigos de Bob em Turangi e Clayton seguiu conosco no dia seguinte para escalarmos em Wharepapa South, onde experimentamos algo que tinhamos visto num filme: escalar descalco e sem magnesio, criando um contato mais natural com a rocha. Voltamos pro carro e dirigimos mais 4 horas ate Coromandel, onde dormimos num mirante na beira da estrada. Porem so pudemos apreciar o visual no outro dia de manha, quando acordamos junto com o Sol e vimos a imensidao colorida e infinita que nos cercava. Coromandel eh uma peninsula com praias maravilhosas, algo que nao imaginava que existia por aqui, por estar acostumado a viver nas montanhas. Clayton nos deixou em Waihi e se despediu. Voltamos a pedir carona e chegamos de noite a Raglan, uma praia incrivel, pra encontrar duas amigas francesas. Passamos a noite na casa de uma nativa maori doida da cabeca e no dia seguinte seguimos pro ultimo trecho da viagem.
DD
Em Auckland, pela primeira vez pagamos por hospedagem, num albergue super movimentado no centro da cidade, e nos sentimos desconfortaveis num lugar onde nao precisavamos de lanterna. Tambem encerrramos a dieta de arroz integral com um mega jantar tailandes e 3 sobremesas. Eu e Bob nos despedimos de Tibum e fomos para um centro tibetano, onde passamos 10 dias meditando e trabalhando em troca da hospedagem. De la voltei pro frio e pro trabalho.
DD
Ja que estou do outro lado do mundo, aproveito pra fazer coisas tipicas daqui. Durante o verao participei de uma corrida de bicicleta de 50km pelo meio de uma cadeia de montanhas. Com mais de 2000 incritos, a Motatapu eh a maior corrida da regiao e parte de Wanaka, subindo por 35km, terminando com um longo downhill e a travessia de um rio. Quando cruzei a linha de chegada me senti como se fosse o proprio campeao, tamanha alegria por ter participado e concluido aquele belo percurso.
DDD
Em fevereiro, um festival de musica historico. Grandes bandas daqui tocando por 48 horas sem intervalo em Ohau, perto de um lago com montanhas ao redor. Black Seeds, Katchafire, Salmonella Dub, Kora, Rhombus, The Phoenix Foundation, dDub, Cornerstone Roots e Ladi6 foram algumas das presencas. Em certo ponto eu estava com meu saco de dormir deitado perto do palco pra nao perder as atracoes. Sai de la cansado de tanto dancar, porem renovado.
DD
Outra atividade tipicamente kiwi foi a colheita da uva, com Tibum que estava quebrado perto do fim de sua viagem. O trabalho comecava bem cedo, em torno das 7 da manha e durava de 5 a 8 horas. Era ate divertido pois ficavamos conversando e dando muita risada. Tambem tinha um patrao gente boa que oferecia café da manha e almoco. O problema era ficar tanto tempo agachado recolhendo a uva com uma tesoura e a dor nas costas era inevitavel.
DD
Os meses que passei na Cabine Cosmica marcaram minha vida com muito tempo pra contemplacao, tanto da natureza como da vida em si, e grandes descobertas musicais. Tambem aproveitei para receber viajantes de bicicleta, atraves do site Warm Showers. Passaram 2 casais do Canada. Um de Winnipeg, Mike e Katrina, e outro do Yukon, Mike e Laura. Dois brasileiros. O paulista Paulo, e o manezinho Eduardo. Alem de Richard, do Colorado. Foi bom retribuir a hospitalidade que sempre me foi oferecida nas viagens e tambem gratificante conhecer essas pessoas. Agora tenho morado com brasileiros e como feijao toda semana.
DD
Depois de fazer 41 massagens na semana do Natal, preparei a mochila pra encarar uma trilha de seis dias na segunda semana de janeiro e, assim, recarregar as energias pro novo ano. Ao inves de escolher as mais conhecidas optei por um caminho menos acessado, onde eu nao encontraria nenhum ponto de apoio, nem placas indicando o caminho e sem turistas. Five Passes, um trajeto que previa a travessia de cinco montanhas, foi um misto de extase por caminhar em um lugar tao encantado e indignacao por me submeter a tanto sofrimento. Andava em torno de 8 a 10 horas por dia com a mochila carregada com comida e equipamento, sempre atento quanto a direcao, com mapas e GPS de auxilio que nem sempre davam 100% de certeza nas decisoes. Como se nao bastasse todas as adversidades naturais, ainda tinha que lidar com as sandflies, insuportaveis mosquitos que tiravam minha tranquilidade durante o dia e meu sono durante a noite.
AA
No primeiro dia segui o leito de um rio ate um vale onde as rochas ao redor formam um anfiteatro, armei acampamento e na manha seguinte subi a primeira das montanhas. Desci em direcao a outro rio, andando pelas pedras e sempre tomando agua de altissima qualidade, de pureza infinita. Dormi essa noite numa caverna, com uma cachoeira como cenario. Voltei a andar e subi mais duas montanhas, acabei me perdendo ao descer uma delas e passei um dos piores momentos da minha vida, quando quase cai de um penhasco e me senti estupido por colocar minha vida em risco. Acampei num plato com receio de que chovesse forte de noite e a barraca fosse alagada, por estar num terreno nao muito solido. Mas nao choveu.
AAA
Outro desafio e a ultima montanha. La de cima vi o mar e o Lago Wakatipu, fato que pouca gente acredita que eh possivel. Tinha ainda que atravessar um imenso vale, e andei 11 horas ate armar acampamento. No ultimo dia, antes da civilizacao, um rio. Um momento de muita tensao, estava bastante confiante depois do tempo na natureza selvagem e a mochila nao pesava como no comeco, com toda a comida ja consumida. O rio, porem, trazia agua da chuva que caiu intensamente uma semana antes e o degelo das montanhas. Nao conseguia enxergar o fundo e nao tinha quem pudesse me ajudar.
AAmmA
Nessas horas a fe que carregamos se fortalece e creio que vislumbramos forcas que sempre temos mas nem sempre fazemos questao de usar. Atravessei o rio com a ponta dos pes tocando as pedras no fundo, com a agua me levando com muita forca e tentando evitar que a mochila fosse arrastada. Nao me deixei vencer, tinha que ter conviccao de que iria chegar ao outro lado. Todo molhado, encerrei a caminhada num lugar chamado Paradise e gritei bem alto a todos os seres das montanhas em agradecimento por toda a forca que me foi transmitida, com sentimento de missao cumprida e em resposta ao chamado da floresta.

5 comentários:

Anônimo disse...

Adorei sua história... Uma boa jornada procê! Eu não sei usar direito este blog(negócio)não sei porque meu comentário não tá junto dos outros... mas tudo bem. Valeu! fica bem! Saúde! Vê se melhora nos ombros...
M.E.

Maria Eugênia disse...

ADOREI LER SUAS HISTÓRIAS... E VER A FOTOS.. APROVEITA POR MIM!!!!!!!
FAÇA UMA BOA JORNADA E TE CUIDA!
MELHORAS AÍ PROS OMBROS!

M.E.

Marina disse...

Ocean é uma música linda!
Sua história está linda!
Stick a Bush é uma ótima maneira de viver...

Anônimo disse...

Fala Tyago!
Muito massa "ouvir" os seus relatos. Duas passagens marcaram-me profundamente: quando vc diz que se sentiu estúpido por colocar a vida em risco (um momento de bobeira e já era) e, também, quando discorre sobre as forças que possuímos e nem sempre as utilizamos.
Muito provavelmente o livro e o filme "in the wild" já façam parte da sua história. Mas, caso ainda não conheça, fica aqui a sugestão: o nome dele é Christopher J. McCandless.
Força aí! Rodrigo

Daniel Jun disse...

cara q saudade d vc
como eu gostaria de tah dando uns roles d snowboard contigo, algum dia pretendo ir p esses lados, nao sei se vc ainda estara pelas essas redondezas mas q eu quero conhece esse lado do mundo eu quero
se cuida hein primo
abrasssss
Dani