6.4.10

Home is where the heart is

Magica!

Talvez essa seja a explicacao pra muitas coisas que acontecem. Nossa existencia neste planeta revela-se repleta de acontecimentos inesperados, nos ensinando a ter confianca em forcas maiores que nos guiam e tambem no potencial das pessoas que cruzam nosso caminho. Os meses desde o ultimo relato nao foram menos repletos de adrenalina e amigos iluminados para compartilhar a magia da vida
.


Snowboard mudou minha vida e os momentos que passei nas montanhas ficarao eternamente gravados em cada uma das minhas celulas. O auge do inverno foi fazer backcountry, que basicamente eh encontrar lugares pra descer aonde ninguem mais desce, na mais pura e perfeita neve, com a ajuda das tecnicas de escalada em gelo. Utilizamos crampons e piquetas como extensoes do nosso corpo e a prancha presa nas costas. Depois de 3 horas subindo chegamos no topo e vimos o imenso abismo que nos esperava. O medo transformou-se em coragem e a longa escalada em infinitos minutos de descida. Cada uma das rasgadas na neve, de alguma forma, deixava meu espirito mais calmo e feliz. Surfar a montanha eh o extase da alma.

A neve derreteu em novembro, despertando nostalgia na memoria e preguica no corpo cansado. Descobri uma nova maneira de ser mais feliz fazendo da van minha nova casa. Viver nomade mostrou-se bem pratico, economico e viciante. Meu quintal podia ser qualquer lugar e ninguem me cobrava aluguel. Nestas horas tambem eh bom contar com bons amigos, de vez em quando podia aparecer na casa de algum deles e usufruir de um bom banho. A casa que morei antes sempre serviu como ponto de apoio. 52 Riverside Road eh um cantinho especial onde reina o bom humor e sempre tem mate, reggae roots, comida deliciosa e um extra sentimento de uniao. Sentir-se em casa sempre aquece o coracao quando estamos longe.

Cair na estrada em dezembro nao foi como das outras vezes. Levava uma casa sobre rodas, com todas as facilidades: cozinha, cama, varias roupas, diversos livros, equipamento de escalada e bicicleta. Dirigi pelas curvas da ilha sul, de Queenstown a Murchison, onde aconteceria o Encontro Rainbow Mundial, que uma vez por ano, durante um ciclo da Lua, reune centenas de pessoas dispostas a compartilhar experiencias e conhecimento em um acampamento distante da civilizacao. Sem energia eletrica, com muita celebracao intuitiva e amor mutuo. Conectei-me com irmaos e irmas de varios lugares do mundo, alimentei-me de bastante convivio saudavel, ofereci a forca de meu trabalho e a musica de minhas maos. Enchi meu peito da chama do fogo, meu ouvido do cheiro da mata, meus olhos dos cantos dos passaros, minha mente da agua das montanhas e meu coracao de ar puro. Depois, parti em direcao ao Parque Nacional Abel Tasman para uma trilha de 3 dias e Golden Bay, tanto para escalar como participar dos festivais que acontecem no verao. Mais musica, mais danca, mais natureza, mais contemplacao. Nasci de novo.

Cheguei a Nova Zelandia em 19 de junho de 2007. Vivi intensamente e aprendi um pouco mais sobre a vida. Dediquei-me a apreciar a natureza sublime que compoe o cenario desta distante nacao. Eh a hora, porem, de dizer "ate logo" e tocar em frente. Sinto como se estivesse saindo de casa de novo e se minha vontade de ver o mundo nao fosse tao grande poderia, sem hesitacao, optar por viver pra sempre entre aquelas lindas montanhas. Muito tempo atras me disseram que o viajante deve ter um coracao bem grande, onde caiba tudo e todos que os caminhos trazem.

De tanto que aprendi, algo concluo ser o que me trouxe mais sintonia e enriquecimento. Eh um sentimento nobre que torna nossa essencia mais forte e angustia quando saboreada com a saudade. Pode ser a razao de nosso viver e a afirmacao de tudo que eh sagrado. Eh o sangue e o amor posto em pratica construtiva ou o infinito sintetizado em realidade e a demonstracao do desejo e da fe. Tambem eh a nocao de que somos todos feitos do mesmo tecido, guiados pelos mesmos anseios, virtudes e qualidades. Que nunca estamos sozinhos. A palavra que reune todas as constelacoes.

Familia!


5.8.09

Stick a bush

Vamo que vamo… do jeito que da! Este tempo de ausencia relatando minha vida foi porque muita coisa rolou e sentar pra escrever tem sido fato raro, e trabalhoso. Isto eh, nao eh falta de assunto o problema, dessa vez culparei a logistica envolvida. Como na Nova Zelandia nao se fala nem se escreve portugues, a missao em atualizar o blog consiste em escrever tudo, colocar todos os acentos e cedilhas e, ai sim, publicar. Mais o fato de que nao tenho computador pessoal, obrigando-me a ir em cybercafés. Hoje resolvi publicar tudo assim, tosco.
JJJ
No ultimo relato descrevi as ultimas neves do inverno passado. Agora estamos com as montanhas brancas de novo e todo mundo louco pra esquiar. Nao faz muito frio esse ano, algo entre 5 e 10 graus, em media, durante o dia. Eh tambem a primeira temporada que faco snowboard, um esporte que tem me fascinado pela sensacao que proporciona. Liberdade ativa em velocidade extrema, conexao simples mas intensa com a natureza e muito estilo. Aprender a descer uma montanha cheia de neve consiste em muitas quedas, risco de lesao e dores em lugares que voce nem sabia que existia. Minha dica eh que se alguem um dia te chamar pra ir pra montanha, nao perca a chance. E use capacete.
SS
Quando eu tinha uns 20 anos, tive meu primeiro e unico carro, um fusca branco. Lembro que sempre deixava a gasolina acabar, porque nao me dou bem com essas maquinas. Depois disso, so bicicleta e moto. Mes passado, meu amigo Jon estava indo embora pra Australia e perguntou se eu queria ficar com sua van e pagar nos proximos meses. Nada mal. Aceitei a proposta e tomei posse de uma van vermelha, ja batizada de Phoenix, que com cama e cozinha vai ser minha casa quando esquentar de novo. Ainda nao aceitei direito a ideia de queimar combustivel, mas nao vou virar escravo da gasolina, prometo.
SSS
Jon, alias, foi a primeira pessoa que conheci no Hangdog, um camping que fica a poucos metros de uma reserva onde estao inumeras paredes de calcario e eh frequentado por escaladores do mundo todo. Passei 3 semanas inesqueciveis e celebrei meu aniversario com escalada na beira do mar, pizza, fogueira e musica. O nome da reserva eh Paynes Ford, com mais de 10 setores que variam de 10 a 60 metros de altura e esta a alguns minutos da pequena cidade de Takaka, famosa pelo estilo hippie de seus habitantes. Alem das muitas escaladas, o dia-a-dia no Hangdog era preenchido por muita musica, principalmente Neil Young e reggae, grande parte tocada por 3 musicos israelenses. A slackline tambem estava sempre esticada, a fogueira nos aquecia de noite e uma otima sensacao de familia, onde todos cuidavam de todos e as refeicoes eram feitas em grupo. Ali nasceu o estilo STICK A BUSH de se viver.
SSSSS
Um dos grandes amigos que ja fiz na vida, Tibum, estava prestes a ir de volta pra Franca, depois de 7 meses, e iria encarar 850km de carona ate Auckland. Resolvi ir com ele e convenci Bob, da California, a ir junto. Desde o momento em que deixamos o Hangdog ate chegarmos na maior cidade neozelandesa parece que tudo aconteceu como magica, feito um sonho mais que perfeito. Estavamos repletos de alto astral e contagiavamos as pessoas que conheciamos. O primeiro trecho foi ate Nelson, que cumprimos com 3 caronas. No dia seguinte, apos dormirmos no sofa de um albergue, atravessamos o estreito que divide as duas ilhas e chegamos em Wellington.
SSS
Passamos duas noites na casa de um frances e a partir dali seguimos uma dieta estrita de arroz integral, frutas e castanhas. Em parte por ser uma alternativa economica, mas tambem pela desintoxicacao. Mais 3 caronas e chegamos em Bulls. Estavamos os tres sentados na calcada comendo arroz integral e, sem grandes esperancas, levantei e coloquei meu polegar em acao (aqui se pede carona com a mao esquerda), em cerca de cinco minutos um carro vermelho encostou e li o adesivo no vidro traseiro: 100% Angel. Perguntamos onde ele estava indo, a resposta foi: Nao sei, e voces? Dissemos que rumavamos norte, sentido Lago Taupo. Mostramos no mapa e ele topou seguir naquela direcao, ja que tinha acabado de comprar o carro e estava realmente sem destino, viajando por 2 semanas pelo pais.
DDD
Dormimos aquela noite na casa de uns amigos de Bob em Turangi e Clayton seguiu conosco no dia seguinte para escalarmos em Wharepapa South, onde experimentamos algo que tinhamos visto num filme: escalar descalco e sem magnesio, criando um contato mais natural com a rocha. Voltamos pro carro e dirigimos mais 4 horas ate Coromandel, onde dormimos num mirante na beira da estrada. Porem so pudemos apreciar o visual no outro dia de manha, quando acordamos junto com o Sol e vimos a imensidao colorida e infinita que nos cercava. Coromandel eh uma peninsula com praias maravilhosas, algo que nao imaginava que existia por aqui, por estar acostumado a viver nas montanhas. Clayton nos deixou em Waihi e se despediu. Voltamos a pedir carona e chegamos de noite a Raglan, uma praia incrivel, pra encontrar duas amigas francesas. Passamos a noite na casa de uma nativa maori doida da cabeca e no dia seguinte seguimos pro ultimo trecho da viagem.
DD
Em Auckland, pela primeira vez pagamos por hospedagem, num albergue super movimentado no centro da cidade, e nos sentimos desconfortaveis num lugar onde nao precisavamos de lanterna. Tambem encerrramos a dieta de arroz integral com um mega jantar tailandes e 3 sobremesas. Eu e Bob nos despedimos de Tibum e fomos para um centro tibetano, onde passamos 10 dias meditando e trabalhando em troca da hospedagem. De la voltei pro frio e pro trabalho.
DD
Ja que estou do outro lado do mundo, aproveito pra fazer coisas tipicas daqui. Durante o verao participei de uma corrida de bicicleta de 50km pelo meio de uma cadeia de montanhas. Com mais de 2000 incritos, a Motatapu eh a maior corrida da regiao e parte de Wanaka, subindo por 35km, terminando com um longo downhill e a travessia de um rio. Quando cruzei a linha de chegada me senti como se fosse o proprio campeao, tamanha alegria por ter participado e concluido aquele belo percurso.
DDD
Em fevereiro, um festival de musica historico. Grandes bandas daqui tocando por 48 horas sem intervalo em Ohau, perto de um lago com montanhas ao redor. Black Seeds, Katchafire, Salmonella Dub, Kora, Rhombus, The Phoenix Foundation, dDub, Cornerstone Roots e Ladi6 foram algumas das presencas. Em certo ponto eu estava com meu saco de dormir deitado perto do palco pra nao perder as atracoes. Sai de la cansado de tanto dancar, porem renovado.
DD
Outra atividade tipicamente kiwi foi a colheita da uva, com Tibum que estava quebrado perto do fim de sua viagem. O trabalho comecava bem cedo, em torno das 7 da manha e durava de 5 a 8 horas. Era ate divertido pois ficavamos conversando e dando muita risada. Tambem tinha um patrao gente boa que oferecia café da manha e almoco. O problema era ficar tanto tempo agachado recolhendo a uva com uma tesoura e a dor nas costas era inevitavel.
DD
Os meses que passei na Cabine Cosmica marcaram minha vida com muito tempo pra contemplacao, tanto da natureza como da vida em si, e grandes descobertas musicais. Tambem aproveitei para receber viajantes de bicicleta, atraves do site Warm Showers. Passaram 2 casais do Canada. Um de Winnipeg, Mike e Katrina, e outro do Yukon, Mike e Laura. Dois brasileiros. O paulista Paulo, e o manezinho Eduardo. Alem de Richard, do Colorado. Foi bom retribuir a hospitalidade que sempre me foi oferecida nas viagens e tambem gratificante conhecer essas pessoas. Agora tenho morado com brasileiros e como feijao toda semana.
DD
Depois de fazer 41 massagens na semana do Natal, preparei a mochila pra encarar uma trilha de seis dias na segunda semana de janeiro e, assim, recarregar as energias pro novo ano. Ao inves de escolher as mais conhecidas optei por um caminho menos acessado, onde eu nao encontraria nenhum ponto de apoio, nem placas indicando o caminho e sem turistas. Five Passes, um trajeto que previa a travessia de cinco montanhas, foi um misto de extase por caminhar em um lugar tao encantado e indignacao por me submeter a tanto sofrimento. Andava em torno de 8 a 10 horas por dia com a mochila carregada com comida e equipamento, sempre atento quanto a direcao, com mapas e GPS de auxilio que nem sempre davam 100% de certeza nas decisoes. Como se nao bastasse todas as adversidades naturais, ainda tinha que lidar com as sandflies, insuportaveis mosquitos que tiravam minha tranquilidade durante o dia e meu sono durante a noite.
AA
No primeiro dia segui o leito de um rio ate um vale onde as rochas ao redor formam um anfiteatro, armei acampamento e na manha seguinte subi a primeira das montanhas. Desci em direcao a outro rio, andando pelas pedras e sempre tomando agua de altissima qualidade, de pureza infinita. Dormi essa noite numa caverna, com uma cachoeira como cenario. Voltei a andar e subi mais duas montanhas, acabei me perdendo ao descer uma delas e passei um dos piores momentos da minha vida, quando quase cai de um penhasco e me senti estupido por colocar minha vida em risco. Acampei num plato com receio de que chovesse forte de noite e a barraca fosse alagada, por estar num terreno nao muito solido. Mas nao choveu.
AAA
Outro desafio e a ultima montanha. La de cima vi o mar e o Lago Wakatipu, fato que pouca gente acredita que eh possivel. Tinha ainda que atravessar um imenso vale, e andei 11 horas ate armar acampamento. No ultimo dia, antes da civilizacao, um rio. Um momento de muita tensao, estava bastante confiante depois do tempo na natureza selvagem e a mochila nao pesava como no comeco, com toda a comida ja consumida. O rio, porem, trazia agua da chuva que caiu intensamente uma semana antes e o degelo das montanhas. Nao conseguia enxergar o fundo e nao tinha quem pudesse me ajudar.
AAmmA
Nessas horas a fe que carregamos se fortalece e creio que vislumbramos forcas que sempre temos mas nem sempre fazemos questao de usar. Atravessei o rio com a ponta dos pes tocando as pedras no fundo, com a agua me levando com muita forca e tentando evitar que a mochila fosse arrastada. Nao me deixei vencer, tinha que ter conviccao de que iria chegar ao outro lado. Todo molhado, encerrei a caminhada num lugar chamado Paradise e gritei bem alto a todos os seres das montanhas em agradecimento por toda a forca que me foi transmitida, com sentimento de missao cumprida e em resposta ao chamado da floresta.

10.11.08

A Cabine Cósmica

Novembro chegou trazendo um pouco de calor, escaladas, pedaladas e mais trabalho. Mesmo com o inverno cada vez mais distante, semana passada fomos surpreendidos por uma bela manhã de neve. Um espetáculo de flocos caindo como plumas leves, seguidos por ventos fortissimos vindos do sul que rapidamente limparam o céu e proporcionaram assim o resto do dia ensolarado. Talvez tenha sido mais especial por eu poder ter apreciado tudo pela janela da Cabine Cósmica, o espaço que por um tempo chamarei de casa.

São mais ou menos 35m2, com um ambiente quarto-sala-cozinha e um banheiro. Se me perguntar se tem TV digo que é uma tela plana de 4X6m, ou seja, uma janela gigante com o visual impagável do Lago Wakatipu, das montanhas Remarkables e do Cecil Peak, logo em frente. O nascer do sol pode ser contemplado da minha cama e o mesmo vale para as noites de lua cheia. No mais, minha bagunça, meus discos e livros, e nada mais.

A boa noticia é a melhora do meu ombro, graças ao trabalho das pessoas que me ajudaram e a paciência que cultivei. Descobri lugares novos para escalar e meu único dia livre na semana é aproveitado por completo. Paciência nunca é demais e agora é necessária até que eu retorne à boa forma. Aproveito para escolher pelas vias mais longas e me preparar para o grande projeto do verão: Mount Chaos.

Meu amigo Stanley, que apesar do nome é manezinho da Ilha de Santa Catarina, estava andando por uma trilha quando avistou uma gigantesca parede e, com uma curiosidade insaciável, iniciou a pesquisar descobrindo que se trata de um cume nunca antes alcançado. Com praticamente 2000m, o Chaos nos aguarda para sua primeira ascensão.

A minha estação do ano preferida, assim como de quase todo brasileiro, já promete ser de muita inspiração e adrenalina. A temporada de escalada está só começando, as trilhas de bike estão todas abertas, a grama não está mais tão fria para a slack line e a solitude de morar sozinho na Cabine Cósmica vem trazendo muita tranquilidade criativa e yoga energizante.

Ainda aguardo sua visita para uma xicara de chá no fim de tarde para podermos apreciar juntos este visual.


10.10.08

Meus ombros suportam o mundo

O que realmente importa na vida? Isto é, em sua vida diária, o que necessariamente é um motivo de preocupação? Você que está lendo isso, provavelmente tem garantidas suas vontades básicas, ou seja, não passa fome, não sente frio, tem uma cama confortável, etc. O que vem além do bem-estar são realizações pessoais e, de forma extrema, capricho e luxo. A meio caminho entre o básico e a felicidade está nossa estabilidade interna, garantida através de saúde. Física e psicológica. Então, quando ai houver distúrbio, de certa forma, é um problema.

Ainda estou morando em Queenstown, já faz dois meses e meio que voltei do Brasil. Consegui um emprego numa clínica de massagem 4 dias depois que pisei novemente em Aotearoa. O inverno se despede sem pressa, os cumes das montanhas ainda estão cobertos de neve, mas as cerejeiras já estão floridas, sinal de que a primavera pede passagem. Os boarders e esquiadores vão deixando a cidade e os escaladores, bikers e trekkers não vêem a hora de tirar o equipamento do armário, sacudir as teias de aranha e aproveitar os longos dias de céu azul.

Durante minhas férias, após uma das sessões de escalada, senti uma dor no ombro. Segui fazendo yoga e alongando, mas a dor continua. Escalei aqui ainda duas vezes mas percebi que o problema é mais sério. Sem escalar a mais de um mês, estou descansando meus ombros, somente usando-os no trabalho, esticando-os diariamente e recebendo terapias. Massagem, Reiki, Bowen e Theta.

Uma vez, pedalando pelo Rio Grande do Norte, tive sérias dores no joelho que me impediram de seguir naquele dia. Na minha cabeça sempre passava a idéia de como me sentiria se ficasse impossibilitado um dia de andar de bicicleta e agora, igualmente, imagino como ficaria desapontado se não pudesse mais escalar em virtude de uma lesão.

O processo da cura é também um trabalho de paciência. Por mais vontade que eu sinta agora de subir as paredes, de nada adiantará se eu agravar a situação. Além do que, ainda posso pedalar, correr, caminhar pelas tantas trilhas da região e andar de slackline. Se Drummond estivesse ainda vivo, certamente olharia pra mim e diria: "Meu filho, teus ombros suportam o mundo. E ele não pesa mais que a mão de uma criança.".

18.9.08

Positivando a vida

“A vida vem em ondas como o mar”. Realmente pensei em começar este relato com esta passagem. Achei muito óbvio, embora demonstre bem o que quero dizer. Pensei, pensei, pensei e a outra frase que me ocorreu foi: “Ou a vida é uma ousada aventura, ou não é nada”. Gostei dessa, se bem que aventura não precisa necessariamente ser ao pé da letra, mas que você ouse viver a vida de forma a usufruir o melhor que ela oferece e, literalmente, não tenha medo de ser feliz.

Venho relatar hoje o que fiz durante minha ausência esse tempo todo aqui neste espaco. Você bem reparou que está tudo novo, assim como eu próprio sinto-me por dentro. Escrevo ainda da Nova Zelândia e os últimos meses foram, sinceramente, clássicos! Fazendo o link com o último relato, foram tempos de muito trabalho e escalada no pouco tempo de folga. No começo o dia-a-dia na cozinha foi complicado mas acabei me adaptando, com sacrificio e vontade. Aprendi a fazer saladas, tortas, sobremesas e outras delicias, cada uma pacientemente ensinadas por Anne.

Explorei as paredes da região e o mais usual foram os boulders (blocos) de Jardines, aqui pertinho, mas a melhor descoberta sem dúvida foi Wye Creek, uma imensa falésia de vias prazerosas. O visual inclui o imenso lago Wakatipu, as montanhas e uma estreita e gelada cachoeira. A derradeira escalada do verão foi o topo das montanhas Remarkables, que tem Double Cone como ponto mais alto, com 2340m. Também foi minha primeira escalada em estilo tradicional, ou seja, sem a utilização de grampos fixos, somente com equipamento móvel que não danifica a rocha. Foram 7 cordadas e muita adrenalina, tanto na agradável subida quanto na arriscada descida.

2007 terminou em alto estilo, com um salto de paraquedas em Glenorchy. A queda livre só pode ser definida como viciante. Senti poucas sensações tão boas até agora na vida. O ano novo chegou cheio de bons fluidos e já no primeiro dia encarei uma dificil jornada de bicicleta até o lago Mavora, foram 100km em dois dias por um encantador vale entre as montanhas. Relaxe, tudo isso eu ainda vou contar com todos os detalhes.

O verão seguiu cheio de emoções. Segui trabalhando em média 12 horas por dia, por isso qualquer tempo livre tinha que ser muito bem aproveitado. A principal atividade foi mesmo a slack line. Aos 45 do segundo tempo, já em maio, peguei um avião e senti algo antes nunca vivido por mim: férias no Brasil! Fui logo gastar meu dinheiro na Cidade Maravilhosa, não sou mané. Tinha os objetivos de aprender massagem ayurvédica e explorar as montanhas que ornamentam tão bem a Guanabara. Aprendi uma eficiente massagem que hoje me ajuda muito aqui no novo emprego. As aventuras foram além do esperado e o auge foi o highline da Pedra da Gavea.

Era uma vez um grupo de escaladores que foram pra montanha e encontraram tempo ruim. Sem ter o que fazer, pegaram o equipamento que tinham e inventaram um esporte chamado Slack Line, que consiste numa fita de alta resistencia tensionada entre dois pontos, o praticante tem como objetivo equilibrar-se sobre esta fita. Porém, a brincadeira fica BEM mais divertida se esta fita estiver BEM longe do chão, dai surgiu o Highline. Meu grande novo amigo Hugo é o cara que comanda no Brasil e me levou para o mais alto highline do pais e o quarto que se tem noticia até hoje no mundo. Com mais de 800m, no alto da Pedra da Gavea, na cidade do Rio de Janeiro. Inesperadamente, a sensação mais intensa que já vivi.

Voltei para casa, em Londrina, e logo chamei uns amigos para fazer outro highline, desta vez entre dois prédios abandonados. Uma tarefa mais fácil, porém de alto nivel. Glorioso! Passei um tempo curtindo os velhos amigos e minha mãe e me preparando para dois grandes eventos que viriam a seguir. Segui para Paraty para a cerimônia de casamento de meu amigo Pedro, que por acaso conheci 5 anos atrás num ponto de ônibus na India, com Teka e na outra semana fui padrinho de meu irmão em sua união matrimonial com Ana Paula. Dois momentos fabulosos, duas festas perfeitas onde celebrou-se o amor e onde pude comparecer com meus votos de muita felicidade para essas familias que dão seus primeiros passos. Pra mim, a maior e mais ousada aventura da vida.

As férias ainda não tinham acabado. Retornei a Minas Gerais após mais de 20 anos e conheci um lugar inesquecivel, único por suas cachoeiras de água pura e por imensos vales e montanhas verdes, perto de São Lourenco e Baependi, onde realizou-se o ENCA, um encontro de arte e espiritualidade que acontece a 32 anos no mes de julho, este ano no Vale do Gamarra. Lá reencontrei uma linda familia que me acompanha aonde quer que eu vá, que me dá forca e inspiração e que é o pote de ouro no fim do arco-iris…AHO!

Agora sim era hora de partir, retornar a New Zeela e reativar o processo aqui. Cheguei cheio de animo e com novos conhecimentos. Não vou deixar de relatar cada história aqui. Hoje, curta este video de um salto delicioso do primeiro bungy jump criado no mundo, com as fotos aqui do lado e com o incentivo de pulsar coragem de dentro de você para ousar, positivar a vida e voar.

16.6.08

Habebe´s

Frio de doer os ossos. Sair na rua, por si só, já significava um sacrifício. Até mesmo dentro de casa a sensação era de congelamento e a necessidade de encontrar emprego se tornava uma missão pouco inspiradora. A cidade cheia de pessoas do mundo inteiro em busca dos drops magníficos do alto das montanhas. Um bonito clima de uma estação de esqui, que tem um brilho diferente de um destino litorâneo, mas confere às pessoas a mesma diversão e contentamento.
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Poucas vagas e muita gente na mesma busca. As opções se limitavam a restaurantes, cafés, bares e principalmente hotéis. Depois de algumas dezenas de nãos, a motivação ia diminuindo, junto com os dólares que eu havia trazido. Já pensava em buscar uma chance nas fazendas de kiwi ou uva, nada animado. Olhava os jornais, murais, visitava as agências e fazia o conhecido porta-a-porta com um punhado de currículos embaixo do braco. Certa noite, tive um sonho. Normalmente não os recordo, mas daquela vez lembrei muito bem dessa mensagem onírica: "- Na Nova Zelândia você vai precisar de paciência." Levei em consideração e obedeci.
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Eis que, dias depois, deparei-me com o Habebe's e sua proprietária, Anne. Sim, o nome lê-se como a famosa rede brasileira de esfihas, mas aqui em Queenstown a especialidade são os kebabs, rolos de pão fino com recheio de saladas impressionantes. Um cantinho alto astral onde logo me identifiquei por sua proposta saudável e divertida, onde poderia aprender muita coisa e trabalhar feliz. Anne me ofereceu uma ficha onde coloquei meus dados e depois de uma breve conversa prometeu me ligar.
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Senti-me otimista pelo falo de minha intuição apontar que daria certo. Depois de alguns dias, numa manhã de domingo, Anne me telefonou e disse haver contratado outra pessoa para a vaga, mas que iria precisar de mais uma em duas semanas. Perguntei se poderia ser eu e ela apenas falou talvez. Era tudo que eu precisava para acreditar que sim.
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Ao invés de sair batendo nas portas como de costume, dediquei uma semana a pegar caneta e papel para elaborar uma carta. Escrevi a Anne toda a minha vida e o que me motivou a vir a Nova Zelândia e querer o emprego. Transformei em palavras meus sentimentos e ambições. Logo que fui entregá-la, ela recebeu-me dizendo que não poderia me contratar já que se o fizesse ficaria com três de seus quatro funcionários brasileiros e isso provavelmente acarretaria problemas com a comunicação com os clientes, com razão, preferindo ela alguém que tivesse inglês como primeira língua. Agradeci e deixei a carta.
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Algumas horas depois ela me ligava convidando-me para um teste na semana seguinte. Senti um grande alívio e satisfação por acreditar; não só nos meus potenciais e nas pessoas, mas na energia que move o universo e constrói o futuro. Fiz o teste e fui contratado, um grande passo para minha permanência e regozijo aqui em Aotearoa.
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Com casa e emprego, fui escalar.

Tasman Palace

Algumas sensações me fascinam. Certamente o que mais me inspira é o inusitado, a percepção de simplesmente não ter idéia do que encontrarei nos próximos passos. E saber lidar com isso. Prevalece sempre a opção de acreditar que coisa boa será, ou melhor dizendo, fé no que virá.
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Quando você carrega uma mochila nas costas é como se tivesse o universo inteiro ao seu alcance, convicto de que é mesmo capaz de realizar o que quer que seja, onde estiver. O mundo todo cabe numa mochila. Se vai a algum lugar começar uma nova vida e carrega tão somente uma mochila, haja o que houver, tudo o que conquistar terá um inesquecível sabor e sua mochila se tornará cada vez mais leve e fácil de se carregar.
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Pisei em Queenstown numa ensolarada, porém fria, tarde de quarta-feira. Fui fazer o que normalmente se faz ao chegar em uma nova cidade, procurar onde dormir. Me dirigi a um albergue e descarreguei minha companheira de viagem. Já com o sono garantido, realizei a segunda necessidade básica dos viajantes: encher a pança. Para celebrar optei pelo meu prato preferido, pizza. E não poupei esforços, comi uma inteira. Assim que consegui andar dei início à minha saga nesta cinematográfica cidade nas montanhas.
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Para minha realização e bem-estar precisava encontrar tão somente duas coisas: casa e trabalho. Comecei pela casa. Pesquisei nos jornais, que aqui são de graça, e nos murais de recados. Como cheguei em plena alta temporada de inverno, haviam poucas vagas. Entrei em contato com um brasileiro, Rodrigo, que anunciava um quarto. Me explicou o caminho e pela primeira vez eu subi a ladeira de Fernhill. A primeira coisa que reparei na casa foi a sensacional vista do Lago Wakatipu e das montanhas que cercam Queenstown. A primeira coisa que senti foi frio, já que as casas não tem aquecimento e tampouco são construídas com tijolos, mas sim de um compensado que mais parece papel.
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Infelizmente o quarto seria ocupado por outros brasileiros, mas como Rodrigo e Lucas, o outro morador, foram com a minha cara, me deixaram ficar na sala por uns dias até que arrumasse outro lugar. Busquei minhas coisas no albergue e me mudei para a fria sala da Tasman Palace, como é conhecida esta casa laranja na Wynyard Crescent, no alto de Fernhill. O nome remonta à epóca em que a casa era decorada com centenas de latas de cerveja da marca Tasman. Instalei-me no chão mesmo em pleno inverno do hemisfério sul nesta latitude de 45° onde as temperaturas baixavam de –5 na madrugada. Juntei uns cobertores, arrumei um travesseiro, mantive a lareira acesa e agradeci muito toda noite antes de dormir.
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Após duas semanas na sala, dei sorte de poder mudar-me para um dos quartos e reconheci uma verdadeira motivação que me leva a viajar pelo mundo. É a satisfação de entender que onde quer que eu esteja, na situação que for, poderei encontrar pessoas dispostas a ajudar. Da mesma forma, eu sempre posso oferecer algo ou mesmo retribuir a outra pessoa, em outro lugar, num outro dia e fortalecer, assim, a corrente do bem. Isto me faz seguir adiante.
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Agora eu poderia buscar um emprego.

A Terra do Nunca

Meses antes de eu vir pra cá, minha mãe tinha sido extorquida por uma quadrilha que comprou 9 celulares falsificando seus documentos. Dia desses recebi um e-mail que comparava a diferença hoje entre um depósito e um saque no cheque especial de R$100 em 1994. Caso você tivesse depositado, seu saldo seria de R$374,00. No entanto, se a mesma quantia lhe fosse cedida, hoje você estaria devendo R$139.259,00 ao mesmo banco. No mesmo e-mail era citado mais um aumento de salário dado ao presidente e lembrava sua frase de que deveríamos levantar a bunda da cadeira.
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Interessante como a música brasileira é valorizada. A todo tempo escuta-se uma de nossas canções. Seja um samba de Ary Barroso, um reggae da Tribo de Jah, uma bossa de Vinicius ou um funk de um desses bondes. No que se compara a beleza feminina, o Brasil encontra poucos adversários e é um dos motivos que torna mais fácil nossa aceitação como invasores, já que sempre trazemos boas amostras. País conhecido por suas conquistas no futebol, mas também na fórmula 1, no tênis, no iatismo, no vôlei, no surf e no skate. E por um ou outro escritor, pintor, estilista, cozinheiro, arquiteto, pesquisador e cineasta.
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Isso tudo me faz lembrar minhas andanças. A infância na mega-louca São Paulo e as férias em Minas e na Pedra do Baú. O Norte do Paraná da soja e do gado, das trilhas de bike e das paredes de basalto e arenito. As praias de Santa Catarina e sua Ilha da Magia. As tantas outras praias, do Rio de Janeiro, Ceará, Bahia, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Piauí. Os mergulhos em Bonito. A Chapada dos Diamantes, que transforma em realidade todo delírio, e vice-versa. Iguaçu, lugar ideal para um banho nu. Nossa mata, a Atlântica, que faz feliz quem ainda pode usufruí-la. Nossa floresta, a Amazônia, o gigante incomodado.
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O chimarrão no fim de tarde do inverno gaúcho e a água de coco no mesmo horário do verão de Ipanema. O pôr-do-sol de Jeri, o centro de São Luiz, o São João de Caruaru, os alagados do Marajó e as montanhas do Rio. O Tibagi, o Paraná, o Paranapanema, o Tiête, o Madeira, o Parnaíba, o Amazonas, o Negro, o Tapajós e o São Francisco. O açai, o feijão, a tapioca, o acarajé, o guaraná, o doce de leite, o quindim, a manga e o café. O forró, o samba, o maracatu, a capoeira, o tambor de crioula e o daime. Mais que lugares, sabores e tradições, me lembram olhares, emoções e pessoas.
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Brasil me lembra jornal na TV. Meia-hora ali que passam os acontecimentos do dia no país e no mundo. As notícias políticas e econômicas, quase sempre girando em torno dos mesmos assuntos e conclusões. As guerras pelo mundo. As brigas entre policiais e traficantes, a tia que roubou porque estava com fome, a greve dos trabalhadores, os hospitais sem água e a fila de velhinhos no INSS. Daí entram os gols, o cara sorri, fala boa noite e começa a novela.

14.6.08

AOTEAROA

Assim que cheguei na Nova Zelândia me fiz uma pergunta despretensiosa: “Estou preparado para os melhores dias de minha vida?”. Isso me pareceu um aviso intuicional de que, cedo ou tarde, me daria bem em Aotearoa, Terra da Grande Nuvem Branca, em maori. Um dos primeiros amigos que fiz, Doug, um neozelandês de mais de 60 anos, me disse quando nos despedimos numa estação de trem: “-Nosso país precisa muito de pessoas boas.” O que tenho aprendido se relaciona com a lei universal de ação e reação.
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Existem lugares pelo mundo abençoados por sua terra e outros pelo seu povo. Raras exceções os que tiveram a sorte de ter os dois. A Nova Zelândia foi infeliz pelas proporções de seu território. Embora rico, fértil e de indescrítivel beleza, resume-se a duas ilhas que juntas medem 270.500m2, menor que o Japão e pouca coisa maior que o estado de São Paulo. Seus 4 milhões de habitantes transformaram este lugar numa próspera nação e sua sorte, creio eu, veio pelo quesito humano.
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Sabe aquele cara que você conhece, se é que conhece, que trata bem todo mundo, paga suas contas em dia, não fura filas, corta a grama do jardim e ainda passeia com os filhos no fim de semana? Esse é mais ou menos o perfil do cidadão kiwi, como é chamado o nativo, que tem muito orgulho de suas tradições, como a tosa do carneiro, o filé de peixe com fritas, o rugby e os esportes radicais, como o montanhismo. Edmund Hillary, kiwi que foi o primeiro ocidental a alcançar o cume do Everest, em 1953, junto com o nepalês Tenzing Norgay, é homenageado na nota de 5 dólares.
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A sensação nacional é a seleção de rugby, os All Blacks, que são praticamente imbatíveis. Talvez pelo Haka, ritual que realizam antes das partidas e que realmente assusta qualquer um que já foi criança. Ao invés de campos de futebol aqui encontram-se gramados com enormes traves em forma de Y, mas o esporte brasileiro vem se popularizando e os mais novos estão substituindo a bola oval pela redonda. Agora, se por acaso o Brasil resolvesse jogar rugby, no mínimo daria muito trabalho no começo. Contudo, eles são insistentes e sonham em breve participar de uma copa do mundo.
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Fico impressionado com a relativa igualdade social que existe neste país. Obviamente existem os que andam com os modernos carrões e os que transitam em jamantas enferrujadas. Agora, se este último resolve colocar um modelo novo na garagem, tem plenas condições. Além disso, parece-me que muita coisa é mais coerente. Caso você esteja andando sem cinto de segurança no banco do passageiro, quem leva a multa é você, não o motorista. É expressamente proibido o consumo de bebidas alcoolicas nas ruas, sendo este ato punido com multa. Pode-se apenas beber nos bares autorizados e em sua própria casa. A primeira vista, estranho, mas pensando bem, isto não evitaria algumas situações embaraçosas no Brasil? Punição com multa também para quem urina em via pública e para quem anda de bicicleta sem capacete. Em última análise, não se trata pura e simplesmente de privação de liberdade e sim de tentar equalizar problemas.
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Acredito que o cidadão brasileiro insiste em pensar que por si só não faz diferença no futuro da nação, que não adianta fazer sua parte para transformar hábitos que herdamos de séculos atrás, como se uma árvore achasse que não fosse capaz de formar uma floresta. Vejo no povo neozelandês um exemplo de como organizar uma sociedade igualitária pensando no coletivo. Quando cada um usufrui de seus deveres, garante seus direitos e ajuda a construir. O que tenho aprendido é sobre integridade e dedicação. A ação é ser uma pessoa boa, como Doug falou, no sentido de uma atitude ativa e altruísta. A reação: talvez os melhores dias de sua vida.

A capital brasileira dos esportes radicais


Feche os olhos e use a imaginação. Vou pedir que visualize um lugar. Primeiro, o lago: belo e imenso, de um azul intenso e brilhante com o reflexo da luz do sol. Acrescente montanhas, algumas delas. Não tão altas mas não baixas. Montanhas nunca são baixas, senão não seriam montanhas. Coloque um tanto de neve no topo de cada uma delas. Não esqueça de colocar um pouco de neve no topo. Agora, uma cidade. Cidade não, cidadezinha, uma cidadezinha nas montanhas. Tá conseguindo?
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Vamos adicionar agora os esportes radicais. Inicie pelo parapente. Pessoas flutuando pelo céu, ícaros modernos, vários deles. Nas montanhas, com neve no topo, esqui e snowboard, o que mais movimenta a cidade. Cidade não, cidadezinha. No lago, parasail, um páraquedas puxado por uma lancha. Caiaques e veleiros. No rio, jet-boat, uma lancha ultraveloz que faz manobras arriscadas e rafting, altas corredeiras. Ciclistas. Daqueles que usam a bicicleta como meio de transporte no dia-a-dia, mas principalmente lunáticos que descem ladeiras insanas de downhill. Imagine o downhill mais casca grossa que você conseguir. Ainda tem mais, relaxa. Skydive com o visual das montanhas. Bungee jump, como poderia esquecê-los, os mais altos do mundo. O maior pêndulo que existe, parecido com o bunguee mas a corda não é elástica, apenas realiza um movimento pendular a mais de 100 metros de altura. Trilhas! Muitas trilhas pelas montanhas. Escalada no gelo e escalada em rocha. Muita escalada.
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Esta overdose de adrenalina transformou esta cidadezinha na capital mundial dos esportes radicais. Queenstown, onde vivem de 15 a 20 mil pessoas, é o lugar onde tenho passado meus dias. Conseguiu imaginá-la? Cheguei no inverno e já peguei temperaturas de –5 graus. Já estou acostumado. Quando faz 10 graus acho calor. Falta falar que o lugar está abarrotado de brasileiros, algo em torno de 10 a 20% da população. Isso é muito bom e também é péssimo. Faz sentir-me mais próximo de casa, mas também faz sentir-me muito próximo de casa, e não vim até aqui pra isso. Ás vezes falo muito português e isso confunde meu inglês, além do que alguns brasileiros já fizeram muita bagunca, o que literalmente queimou o filme. A maioria veio em busca de trabalho, principalmente na rede hoteleira e o lado bom é que essa semana comi arroz e feijão!
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Aqui é mais ou menos assim. O caixa do supermercado é brasileiro, da mercearia também. No McDonald’s você pode pedir em português. O vigia do ginásio é brasileiro, o faxineiro do shopping também. O recepcionista do hotel é brasileiro, os camareiros também. Até o cara que entrega pizza e a banda que tocava na balada da foto. As outras vagas que sobraram foram preenchidas principalmente por ingleses, argentinos, chilenos e um ou outro europeu, japonês ou australiano. Ademais, o mundo inteiro passa aqui. Já encontrei tchecos, poloneses, alemães, suiços, espanhóis, bascos, italianos, belgas, holandeses, escoceses, galeses, irlandeses, austriacos, franceses, sul-africanos, turcos, israelenses, coreanos, chineses, malaios, tailandeses, estadunidenses, canadenses, mexicanos, uruguaios e indianos.
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Você bem sabe que cheguei aqui com três objetivos: trabalhar, escalar e pedalar. Até o momento, foquei todas minhas energias em procurar um emprego que me faça feliz e em que eu possa guardar um dinheirinho. Escalar e pedalar tem ficado para o verão, quando vai estar mais quente e sem neve nas montanhas. A busca por emprego foi uma verdadeira aventura, um esporte radical, que prefiro contar nos próximos capítulos. Por enquanto, feche os olhos e visualize a capital brasileira dos esportes radicais, Queenstown, e pense seriamente em me fazer uma visita.

Kia Ora

Um ano decorrido desde que cheguei com minha bicicleta no Farol da Barra em Salvador, estou sentado num sofá, numa casa de dois andares, num bairro chamado Fernhill, tentando manter-me aquecido, já que a temperatura lá fora está entre –1 e 5 graus. Faz pouco mais de um mês que cheguei a Nova Zelândia.
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Um ano... Um ano que custou a passar. Dediquei-me a tentar de várias maneiras transmitir um pouco do muito que vi pelas andanças no Brasil. Exposição de fotos, edição de vídeo, matéria pra revista, jornal, rádio e TV. Durante esse tempo, o mapa-múndi me apontava diversas possibilidades, mas qual seria a próxima viagem?
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Não sem certa angustia e indefinição que surgiu a hipótese de vir para esta terra distante, minúscula e gelada. Precisei vender minha moto e parcelei a passagem. O que vim fazer aqui? Em primeiro lugar, fui atraído pela exuberante riqueza natural. Embora as duas ilhas que formam este pais sejam pequenas, foram privilegiadas por formações magníficas, de praias a montanhas, lagos e geleiras. Um lugar perfeito para fazer o que mais gosto: pedalar e escalar. Aqui ainda vive pouquíssima gente, em torno de quatro milhões de pessoas e, por ser um pólo turístico, atrai pessoas do mundo inteiro, criando boas oportunidades de emprego. Foi assim que a Nova Zelândia brilhou no mapa.
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Pra chegar aqui tive que atravessar um largo oceano, o da paz. Para tanto fui ate Santiago e de lá passei mais 13 horas voando pra aterrissar na Oceania. O que eu ainda não entendi é porque durante todo o vôo permaneceu completamente escuro do lado de fora. Uma longa e infinita noite, sobrevoando o mar. Veja bem, sai do Brasil no domingo as 16hs, vivi 22 horas contando vôos e conexões e cheguei em Auckland na terça-feira, 7hs da manhã, atordoado e confuso. Ai sim vi o sol.
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Esperava-me um desafio, convencer a imigração das minhas intenções, já que não poderia dizer que vim para trabalhar, pedalar e escalar. Falei somente que vim pra pedalar e escalar, o que convenceu o oficial maori com cara de mau, que carimbou meu passaporte e disse a tão sonhada frase: “Welcome to New Zealand”, que soou como uma musica dos Beatles aos meus ouvidos. Pensei em repetir o gesto de Pelé, mas achei que não pegaria bem, recolhi minha mochila e fui ver o que me esperava do lado de fora.
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Embora eu já tenha viajado até que mais ou menos, foi a primeira vez que encarava o tal do “primeiro mundo”, sempre optei por destinos menos sofisticados. A primeira vista, tudo muito organizado, preservado e desenvolvido. Sem os barracões, os mendigos e as crianças nas ruas que normalmente se vê na Bolívia ou na Índia. Alem da mão inglesa, que inverte o cérebro e que quase me fez ser atropelado por um ônibus. Encontrei o albergue que havia reservado e, como um bom sinal, ele se localizava numa linda praça cheia de plátanos, a mesma árvore que plantei junto com minha mãe na frente da janela de meu quarto em nossa casa em Londrina. Já comecei a perceber como é o neozelandês, em geral muito educado e rígido, gosta das coisas muito certas e respeita as regras. Fanáticos por rugby e beberrões com orgulho. O povo nativo é o maori, que vivem por aqui há muitas gerações e produzem ótimos seguranças de boate, verdadeiros guarda-roupas.
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Optei por rumar em direção ao sul de trem, estilo clássico, sem preocupações e bem contemplativo. De Auckland a Wellington, a viagem de 12 horas atravessou toda a ilha norte passando por diversas paisagens, cenários extasiantes. Conheci um simpático velhinho que se sentou ao meu lado e foi me contando historias pelo caminho, como a da erupção de um vulcão que destruiu totalmente uma cidade na década de 50.
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Na capital administrativa, tive sorte de encontrar um albergue muito alto-astral. Pelos albergues mundo afora têm-se a chance de conhecer pessoas de todos os lugares, trocar experiências, sair para uma balada, comer junto, compartilhar. Fiquei três noites e dali segui para a ilha sul, atravessando o temeroso Estreito de Cook numa balsa durante 2 horas. Pisei em terra firme para tomar outro trem, que seguiria pela costa leste. O auge do percurso foi a passagem por Kaikoura, uma belíssima região de praias onde inúmeras focas ficam sobre as rochas a beira-mar.
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A terceira cidade que conheci, Christchurch, é famosa pela sua belíssima catedral, uma suntuosa construção gótica. Passei duas noites e parti de ônibus rumo às montanhas. Agora sim eu estava vendo o que tanto esperei: as paisagens de tirar o fôlego! Cadeias de montanhas imensas, repletas de neve, com matizes brilhantes e nítidas, além de simplesmente perfeitas. Lagos imensos que formulavam uma oposição entre a verticalidade branca e a horizontalidade azul. O ônibus serpenteava pela estrada e a janela transformou-se num plástico quadro em movimento.

Desci em Queenstown, a capital mundial dos esportes radicais, onde estou sentado num sofá, numa casa de dois andares, num bairro chamado Fernhill, tentando manter-me aquecido, já que a temperatura lá fora esta entre –1 e 5 graus. Faz pouco mais de um mês que cheguei a Nova Zelândia.

Um Sonho em Movimento pelo Brasil

“O homem precisa viajar. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto”. As palavras de Amyr Klink expressam perfeitamente a inspiração que tive para sair de barco e bicicleta pra conhecer esse país que é múltiplo, alegre, bonito e, essencialmente, todo nosso.
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Tudo começou em Porto Velho, a primeira capital da viagem. Dois viajantes e suas mochilas cheias de sonhos. Lá tomamos um barco que durante três dias percorreu o belíssimo Rio Madeira até Manaus. A sensação, ao adentrar a Floresta Amazônica, foi a de um tesouro que me estivesse sendo revelado. O primeiro andar do barco estava carregado com tomates e batatas, o segundo era composto por um um mosaico de redes coloridas e no último um bar com duas caixas de som bem amplificadas tocando Calypso o dia todo. Do barco mesmo já foi possível perceber como a maior floresta do mundo está sendo dizimada. Se atitudes sérias e eficientes não forem tomadas, em breve nada restará.
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Chegando em Manaus, fomos muito bem recebidos por uma família que nos ofereceu não só hospedagem, como boa comida e novas amizades. Vi a maior coleção de insetos do mundo, o projeto Peixe-Boi, bosques de plantas da Amazônia, tomei o Santo Daime e visitei uma ecovila e um instituto de permacultura. Mas, principalmente, conheci pessoas que estão lutando pra manter a floresta de pé, já que ela é muito mais lucrativa, produtiva e útil desta forma. O risco que corremos é de desperdiçar um fenômeno natural tão expressivo que sua revitalização seja impossível num espaço de tempo relativo à existência humana.
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Dali pra frente, o maior rio do mundo, o majestoso rio-mar, Amazonas. Saindo de Manaus até o encontro das águas escuras do rio Negro com as barrentas do Solimões e de lá por uma imensidão de água e de lendas. Desta vez a embarcação era bem maior e havia muito mais gente. Da mesma forma eu era acordado todos os dias ao som dos alto-falantes que tocavam Calypso e, o mais interessante, eu já começava a gostar das músicas. As margens do rio eram bem distantes e vez ou outra era possível avistar os botos numa dança inebriante no pôr-do-sol ou uma revoada de guarás, suntuosa ave avermelhada. Após longos quatro dias aportamos em Belém, novamente recebidos por uma família local. Conheci um grupo que organiza expedições pelo Pará que nos levaram para uma grande aventura pela Ilha do Marajó.
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O universo marajoara
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Era Carnaval, tínhamos quatro dias para pedalar pela maior ilha fluviomarítima do mundo. Marajó mostrou-se um universo particular, fundindo traços de floresta e savana, além de ótimas praias de água doce. A carne e o leite provêm das manadas de búfalos, que sempre víamos na beira das estradas em terrenos alagados. Pedalamos 315kms e chegamos em Cachoeira do Arari, lugar que fica boa parte do ano inacessível devido à chuva que castiga a região. Mundos novos, dimensões inusitadas que nos mostram que viajar é bom demais.
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Deixando a floresta para trás, era hora de explorar o nordeste. O destino final era Salvador e, já que não tínhamos pressa, fomos de bicicleta. Toda a bagagem tinha que ser carregada e as preocupações principais eram quanto aos lugares pra dormir, o que comer e as melhores rotas a seguir. Viajar de bicicleta é uma experiência sensacional, que proporciona um contato muito próximo com o ambiente e desperta uma atenção especial nas pessoas, que fazem questão de conhecer os intrépidos cicloviajantes. Mais que isso, um transporte saudável, econômico e que não polue.
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A primeira parada, São Luiz, a colorida capital do Maranhão. Com um centro histórico repleto de construções antigas, ladeiras, escadarias e muita música, principalmente reggae e tambor de crioula, tradição herdada dos escravos, onde os homens cantam e tocam enormes tambores e só as mulheres dançam, rodando suas saias, formando um divertido círculo. Precisei empreender uma longa pesquisa para encontrar as melhores dicas para encarar o próximo desafio: a travessia dos Lençóis Maranhenses, de um extremo ao outro, pela praia. Como chegar? O que levar? Onde dormir? Poucos tinham essas informações, já que praticamente ninguém faz essa travessia, ainda mais de bicicleta. Encontrei um geólogo que me passou as condições de vento e terreno, me alertando sobre um rio que encontraria no meio do caminho que não sabia a largura. Em seguida, um biólogo que já havia passado por lá num 4X4, me disse que se precisasse poderia beber a água das lagoas. Um geógrafo me arrumou mapas da marinha onde numa boa escala tinha toda a região detalhada. Finalmente, um jornalista me deu todas as coordenadas para chegar numa vila isolada: Travosa.
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Travessia dos Lençóis Maranhenses
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De São José do Ribamar, município ligado a São Luiz, toma-se um barco de oito horas até Areinha, de lá uma carona num caminhão, que eles chamam de pula, até Travosa, e então a hospedagem na casa de pescadores, em redes. Tudo muito simples, precário e maravilhoso. Uma vila sem TV, internet, pouca luz e um orelhão, onde, de noite, Dona Maria, nossa anfitriã, faz uma fogueira na sala de sua casa para espantar os mosquitos com a fumaça. As crianças ainda brincam de estilingue e fazem carrinhos com latas de sardinha. Gabriel, filho de Dona Maria, não pode ver uma chuva que logo tira a roupa e corre pelado feito um maluco. E não leva bronca. Os rapazes mais velhos, em torno de 25 anos, nunca tinham visto protetor solar na vida e têm de seguir a única opção de trabalho por lá: a pesca. Dona Maria reclama que não agüenta mais comer peixe todo dia, desde que nasceu. Duas coisas chegaram não só ali como em quase todos os lugares que passei, mesmo nas comunidades ribeirinhas da Amazônia. Primeiro, a pinga, o que causa muitas brigas e mortes, ainda mais onde as pessoas não tem muito que fazer. Segundo, na única rua de areia que mede não mais de 100m tem uma construção de alvenaria, talvez a única do lugar, uma igreja evangélica.
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Após quatro dias, saímos bem cedo, antes de clarear, para pegar a primeira maré baixa do dia. Atravessamos as dunas e começamos a pedalar na areia da praia perto das seis da manhã. Não se via nada de diferente a não ser o mar do lado esquerdo, uma imensidão de areia, sem fim nem começo, à direita e raríssimos pescadores. A preocupação era em chegar no Rio Negro, que dividia exatamente em duas partes nosso trajeto. O avistamos aproximadamente ao meio-dia. Era gigante! Tentamos achar saídas para passar e quase fui levado pela correnteza. Não tinha ninguém para ajudar. Afundávamos nossos pés no fundo de lama e a maré estava enchendo. Finalmente achei uma opção que poderia ser a única. Conseguimos passar com as bikes sobre as cabeças tateando o fundo do rio. Mais três viagens e estávamos com tudo do outro lado, ainda na metade do caminho e com a maré cheia. A opção era esperar e seguir de noite, com a lua cheia para nos guiar.
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Quando o sol se pôs eram 18h e a maré começava a baixar, deixando a faixa de areia rígida boa pra pedalar. A lua surgiu brilhante e foi nosso farol pelos 30km que tínhamos que cumprir. Vencemos diversos obstáculos, como lages de pedra, montes de algas que prendiam nas rodas, vento e a sensação horrível de ver uma luz distante que parecia nunca se aproximar. Feito ilusão, cerca de 10 da noite, 17 horas depois de nossa saída, encontramos uma pousada mais perdida que a gente no meio de toda aquela areia. Tomamos banho, de balde, comemos muito e pudemos esticar nossos corpos em confortáveis redes.
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O dia seguinte prometia mais aventura. Com a chuva que caía na época, as dunas estavam bem firmes. Só precisávamos esvaziar um pouco os pneus e deixá-los “bochechudos”. Subíamos até o alto das dunas empurrando as bicicletas e, lá de cima, descíamos com toda a velocidade dropando pela areia. Vez ou outra parando para nadar nas lagoas e para tirar fotos. Um dia perfeito, sem dúvida. Chegamos no nosso destino, Barreirinhas e tivemos bastante tempo para descansar e nos renovar para seguir. O próximo passo era atravessar o Delta do Parnaíba, uma bela viagem de oito horas que é um zigue-zague pelos milhares de canais que o rio forma antes de juntar-se ao oceano.
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Tocando em frente
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O Piauí tem o menor litoral do país, mas mesmo assim exibe lindas formas, como a Lagoa do Portinho. Atravessamos o estado alcançando o Ceará em três dias, o sexto estado da viagem. Seguíamos pela praia, o que foi uma boa escolha nas praias cearenses de beleza estonteante. As surpresas se somavam, como um velho pescador que, questionado quanto à distância para a praia seguinte, não hesitou em responder: “Faltam sete léguas!”. O único problema é que não tínhamos nem idéia de quanto vale uma légua. Fomos de Camocim a Jericoacoara e nos surpreendemos com a magia envolvente deste parque nacional. Chegamos por um caminho não convencional, dando de cara com a duna que enfeita a praia e o agito do pôr-do-sol, sem dúvida um dos clássicos de nosso país, já que Jeri tem o privilégio de ver o sol se esconder no mar, fato raro em nossa costa voltada para o Atlântico. Íamos ficar três dias, fomos embora depois de duas semanas, melancólicos devido à saudade de um lugar como aquele.
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As coisas começaram a mudar. Após muito tempo de viagem, os desgastes emocionais, psicológicos e físicos começaram a se somar. Após passarmos por Fortaleza e Canoa Quebrada tive que continuar a viagem sozinho. Solitário sobre duas rodas. Uma alternativa que me proporcionou dificuldades, mas por outro lado me senti mais livre, além do que as pessoas se mostraram ainda mais abertas a colaborar. Nunca esquecerei um momento de dificuldade em que pedi carona e, logo que entrei na cabine do caminhão, ouvi uma música que só dizia “Tudo vai dar certo”. E deu.
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Passei pela próspera capital potiguar, Natal, e pedalei até Pipa. Se tivesse ido de avião ou ônibus não teria visto uma surpresa no caminho, o maior cajueiro do mundo, de 8.000m2, que fica na cidade de Pirangi e alimenta toda a cidade quando dá frutos. Se tivesse ido de avião ou ônibus também não teria tomado a gelada chuva que me castigou no caminho. Mas o céu abriu e cheguei em Pipa maravilhado com a beleza da Baía dos Golfinhos e impressionado com a especulação imobiliária que compromete nossas riquezas. Construíram um hotel de luxo sobre uma falésia que faz parte de uma área de proteção permanente e num terreno que poderá certamente ceder. Fora os barcos a motor cheios de turistas que espantam os golfinhos e as tartarugas que usam as praias para pôr seus ovos.
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“Minha vida é andar por esse país...”
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O mês de junho é a época perfeita para aproveitar as melhores festas do Nordeste, celebrando o São João que contagia as grandes e pequenas cidades, que se enchem de cores, danças e sabores. O próximo estado seria a Paraíba e, como já tinha visto praias demais, resolvi seguir pelo interior e conhecer as cidades de Campina Grande e Caruaru. Em Caruaru, o dono de uma loja me deu várias peças que estavam quebradas em minha bike, um gesto nobre que me incentivou a seguir viajando. Pude pedalar até a capital pernambucana, Recife, onde as festividades de São João continuavam, somadas a contagiante torcida pela seleção na Copa do Mundo.
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Pedalei até Porto de Galinhas e após dois dias comecei a sentir-me mal e tive febre. Logo fiquei sabendo o que era: dengue. Depois de dez dias, recuperei-me e voltei à estrada para chegar ao estado seguinte, Alagoas. A expectativa para chegar à Bahia crescia. Passei rápido por Maceió e atravessei a divisa com Sergipe em Penedo, nada mais nada menos que o Rio São Francisco, símbolo nacional da integração e bravo guerreiro que faz uma longa jornada e ali perto vai descansar no mar.
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Em Aracaju, uma nova amiga, gaúcha, hospedou-me em sua casa. Faltava um último desafio, a Linha Verde, que oferece uma opção paralela ao mar pra chegar em Salvador sem precisar encarar o caos da BR-101. A estrada segue por Conde, Sauípe, Praia do Forte e Arembepe, onde existe uma aldeia hippie que desde a década de 60 resiste à invasão dos grandes resorts e sequer tem eletricidade. Dali um pulo até a derradeira capital, onde depois de seis meses um grande sonho tornou-se realidade.
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Cheguei pedalando ao Farol da Barra, local que escolhi como ponto final da jornada. Sentei para ver o sol se pôr na Baía de Todos os Santos, saboreei um delicioso acarajé e relembrei todas as etapas, desde quando a viagem era apenas uma idéia no papel até os momentos mais difíceis que me levaram até ali. Senti um gosto inexplicável de vitória e de realização. Agora sim, podia voltar pra casa.






EXPEDIÇÃO REDESCOBRIR


A EXPEDIÇÃO REDESCOBRIR teve o patrocínio da VZAN e apoio da AZTEQ e MOCHILABRASIL.



OBRIGADO!

VZAN, Silnei e Claúdia (MochilaBrasil), Augusto (Mundo Terra), Point 700, Minha mãe e meu irmão, Andressa, Dete, Vitor e Rafa, Tia Inéia, Todos os Editores do Mochileiros.com, Os que compraram as rifas e mais ainda os que as venderam, Todos os irmãos e irmãs, Rosana Aranha Figueiredo, Nick e Negão, Claúdia - Trilha e Cia, Aventura.com, Adilson Koyzumi, Bruno Gehring, Leo Delai, Edson Ferracini e Rodrigo, Rafael (Lan house/Porto Velho), Liliane (Diário da Amazônia/Porto Velho), Seu Wilson (Barco Dois Irmãos), Walter Furikuri e família (Manaus), Marcos Tupi (Trajetoria/Manaus), Lane (Manaus), Rodrigo-Amigo do Walter (Manaus), Tainá (Porto Alegre), André-Amigo da Tainá (Manaus), Mestre Moacir (Manaus), James - Terra Preta (Manaus), Manuela (Correio Amazonense/Manaus), Maigua e Luis (Abra144), César - irmão do Walter (pelo tripé/Manaus), Márcia (Projeto Peixe-Boi-INPA/Manaus), Filipe (Insetos-INPA/Manaus), Leonor (IPA/Manaus), Marcelo Paes e família (Belém), Sérgio Batista: Rita, Cidália, Cidalinha, Cirlândia, Jonathan e Gabriel (Belém), Eart/Iguana (Belém): Silvio, Durval, Daniel, Lôro, Dani, Junior, Cristine, Susane, Diego, Pacoval..., Fábio - Mecânico (Belém), Henrique Beckmann e família (São Luis), Comandante Coronel Pinheiro Filho-PMMA (São Luis), Luis Senzala e Maiane (Acapus/São Luis), Franklin (Hippie/São Luis), Moisaniel (PM/São Luis), Paulão (Jornal Pequeno/São Luis), Dona Antonia (Reviver/São Luis), Dona Maria de Jesus, Ribamar e família (Travosa), Viviane Medeiros (TV Mirante/São Luis), Luis da biologia (São Luis), Léo e Mão (Barreirinhas), Karen Cristina e Elenilton (Barreirinhas), Thiago (Restaurante do Carlão/Barreirinhas), Marcos (Pousada Jagatá/Tutóia), Clayce e Clayton (Parnaíba), Franklin (FC Peças/Chaval), Valdo e Beto (Pousada Tirol/Jeri), Papagaio e Tatu-Bola, Aneeka, Katarin, Cristin, Zeta, Nick, Sara, Nigel, Sharon, Noam, Adenda..., Nadia e Liroy, Cassiano (Cyber Cachaça/Jeri), Terremoto (Chile), Luis Torres e Vera (Jijoca), Galera da Barra das Moitas, Adonias (Companhia dos Pescadores/Caetanos), Eduardo (Cia Aventura/Fortaleza), AABB (Fortaleza), Leandro e família (Canoa Quebrada), Nonato (PRF-Aracati), Henrique (Albergue da Costa/Natal), Rapa Nui (Natal), Elias-Londrina (Pipa), Marilia (Aconchego/Pipa), Armando-Tartarugas (Pipa), Anderson (Ibama/Brasilia), Seu Tico, Maciel e Nazaré (Pedra da Boca), Cláudio Siddhananda-Recife (Campina Grande), Sandro (Santa Cruz do Capibaribe), Álvaro (LTG Peças/Caruaru), Manoel (Pousada Caruaru), Fábio-Self Service do Ferreira (Caruaru), Hare (São João de Caruaru), Tony e família (Recife), Jayme (Recife), Rui Marçal (Recife), Jurema e Luciene (Canto do Mar/Porto de Galinhas), Alberto, Ana e Ivonete (Albergue do Alberto), Dra. Monalisa (Pref. de Ipojuca), Renato (Maceió), SEEL-Estádio Rei Pelé (Maceió), Márcia Cruz-Conexão Nordeste (Aracaju), Adriana (Aracaju), Samuel e Júnior (Sauípe), Pé Duro, Carro Velho, Esmeralda e Geu (Sauipe), Mário e Cava (Aldeia Hippie de Arembepe), Luis-triatleta (Itapuã), Mariana, Beatriz e família (Salvador), Cadu (Jardim Brasil/Salvador), Vanessa-NasAlturas (Lençóis), Egberto, Adilson (Vale do Capão), Júlio e Dayse (Salvador), Robério (Lendas do Capão), Folha de Londrina, Gravidade Zero, Marina Casagrande e toda pessoa que eu tenha encontrado, conversado e esquecido.

12.6.08

Turistas Farofeiros

Enfim, a estrada!
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Para iniciarmos a Expedição Redescobrir foi necessário chegar até Porto Velho, de onde lhes escrevo. Partimos de Londrina dia 24 pela tarde e enfrentamos nada mais nada menos que 48 horas de ônibus. Bom começo, já que houve tempo suficiente para reoganizar o sentimento interior para enfrentar o longo caminho que teremos a seguir. O trajeto foi Londrina - Presidente Prudente - Campo Grande - Cuiabá - Vilhena - Ariquemes - Porto Velho, ou seja, passamos pelos estados do Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia e o ônibus deve ter realizado, se não errei na conta, 3830 paradas!!!!
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A paisagem foi transformando-se muito ao longo do caminho. Nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, muitas plantações de soja, gigantecas, que não deixam ver onde começa nem onde acaba! Fiquei pensando, ora, como pode o maior produtor de soja do mundo ter pessoas sofrendo de fome??? Ah, será que a soja não é alimento de gente? Cruzamos os Parecis, entre o estado do Mato Grosso e Rondônia e essas paisagens me despertaram fascínio. Lindas escarpas, montanhas e um lindo pôr-do-sol para comtemplar! No estado de Rondônia, prevalece a pecuária, tanto é que, ao pechinchar no restaurante dizendo que não queria comer a carne o dono surpreendeu-me dizendo que para ele a salada gera mais gastos do que a carne, já que esta tem de ser trazida dos estados do sul enquanto a carne é produzida em alta escala na região.
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Chegamos em Porto Velho e fomos direto para o mercado Cai N´Agua onde compramos as passagens de barco para Manaus por R$80. Um ótimo preço... é claro que com muita conversa... Já passamos a noite dentro do barco, que está ancorado onde estão as ruiínas da estação de trem Madeira-Mamoré, que surgiu e desapareceu junto com um surto de desenvolvimento desta região, na época da borracha.
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É incrível as dimensões deste país. Tente visualizar quantos países teríamos cruzado se fizessemos esta travessia no continente europeu. No entanto, aqui todos falamos a mesma língua, ouvimos as mesmas músicas, torcemos pelos mesmos times. É incrível! Só comemos coisas diferentes e temos outras gírias, mas é difícil crer que vivia no mesmo país destas pessoas que habitam as margens do Rio Madeira.
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Ah, como fomos prevenidos com nossa comida para não gastarmos durante o caminho, sempre que o ônibus parava sacavamos nossos pães, bolos, etc e saciávamos muito bem nossa fome... o que logo nos rendeu o apelido de farofeiros... e nem levamos frango assado hein!Também logo que entramos no ônibus, a moça simpática que sentava ao nosso lado de cara perguntou "Vocês são turistas né??". Turistas?!? Hummm..acho que não...

De Porto Velho a Manaus pelo Rio Madeira


Vento forte e neblina densa. Frio e um infinito silêncio. A vontade sempre era de permanecer na rede, aquecido, contemplando. Assim iniciavam os dias a bordo do Dois Irmãos, barco que usamos para descer quase toda a extensão do Rio Madeira, desde a cidade de Porto Velho até sua foz, no Rio Amazonas, já próximo de Manaus, em três dias.
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Fomos acompanhados de muita gente, em torno de 150, entre elas muitas crianças, com as quais nos divertíamos, além de tomates e laranjas, que preenchiam o primeiro andar do barco. O tratamento à bordo cabia ao Seu Wilson, responsável pelo bom funcionamento do barco. Distribuía o café (às 7 horas em ponto), o almoço e a janta, sempre com seu apito, fazendo muito barulho para nos acordar e chamar todos à mesa. Também era ele que realiza a limpeza do barco, dos banheiros ao chão do convés.
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Assim que passava o frio da manhã, o céu abria e começava a esquentar. Entretiamo-nos com livros e música, além das conversas com nossos companheiros de viagem. Cada um deles levava uma história. Desde Seu Raimundo, que saiu de Boa Vista/RR e foi até Paranavaí/PR, passando por Manaus, Belém, Feira de Santana, Salvador, São Paulo e Curitiba, tudo em menos de um mês. Como também Jorge, um músico lunático que deixou sua terra, Manaus, na década de 80, para aventurar-se por São Paulo e Rio de Janeiro, atrás de fama e fortuna. Agora volta, com o violão e uma sacola, desiludido e confuso, para reencontrar a família e os amigos que não vê há 25 anos.
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Outro fato interessante é a criatividade usada para batizar as crianças, vejam só: Herlon, Elaise e Heidy (três irmãos que estavam com o pai e que levavam junto dez pintinhos numa caixa); Cidele e Querolin (irmãs, esta última prefere ser chamada de Keyziane); Lierdison (o pai é caminhoneiro, estava com a mãe, que já conhece todas a capitais do país); Diurliane (mas que é chamada de Juliane); todas muito lindas e animadas, cheias de histórias engraçadas.
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Após o almoço, normalmente podíamos desfrutar o calor do sol com a brisa fresca que fazia, indo até o último andar, onde tinha apenas um bar e três alto-falantes enormes que tocavam Calypso praticamente o tempo todo, num volume pra lá de irritante. A chuva caia na parte da tarde, o que não nos impedia de curtir o pôr-do-sol, formando um espetáculo incrível com a mata e o caudaloso Rio Madeira.
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A sensação, ao adentrar a Floresta Amazônica, é a de que um tesouro estivesse sendo revelado. Tamanha exuberância e perfeição são dignas de conservação. O risco que corremos é de desperdiçar um fenômeno natural tão expressivo que sua revitalização seja impossível num espaço de tempo relativo à existência humana. Preservar é necessário. Para as pessoas que vivem na floresta e que estão substituindo seus valores pelo modo de viver industrial de consumo, o rio muitas vezes não passa de uma enorme lixeira, já que atiram tudo nele, incluindo o lixo do banheiro, que Seu Wilson joga toda vez que os limpa, duas vezes por dia.
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A noite cai e o silêncio inabalável da floresta só é quebrado pelo ecoar do som amplificado da Banda Calypso. Chegamos em Manaus perto da meia-noite, aportamos e dormimos mais uma noite no barco até que pudessemos descer e conhecer a cidade. Por aqui permaneceremos pelo menos duas semanas.

Manaus- Gigante do Rio Negro


Com seus quase dois milhões de habitantes, Manaus é uma metrópole que sofre com os problemas de uma cidade grande, ou seja, desigualdade social, aumento desordenado da periferia, trânsito caótico, criminalidade, falta de saneamento, etc.
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Por outro lado, é notória sua riqueza cultural. Fruto da miscigenação característica de nosso páis, mas que aqui deixa prevalecer os traços do caboco (caboclo) e do índio. Claro que com forte influência da cultura massificada que tapa os olhos e ouvidos de muita gente pelo mundo, que faz com que as pesoas ouçam uma música que sequer entendem a letra ao invés de uma linda canção regional.
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Pelo fato de sua inacessibilidade por terra ao sul do país, o simples fato de chegar à cidade já é pitoresco, podendo ser somente pelo céu ou pela água, esta última, mais tradicional, tendo feito a cidade desenvolver-se à beira do Rio Negro. Os viajantes que de barco chegam, como nós, são recebidos pelo enorme porto da cidade, com seu amontoado de embarcaçãoes. Logo em seguida, encontra-se o centro antigo, onde vemos o mercado público e adiante o suntuoso e magnífico Teatro Amazonas, herança de um tempo remoto, quando havia riqueza e prosperidade na região, com a produção da borracha em grande escala. Dentre as tantas atrações da região, elegemos as que ofereciam fonte de pesquisa e inspiração.
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O Inpa (Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia), desenvolve diversos trabalhos dentro da floresta, em áreas como Ecologia e Zoologia. Pudemos conhecer o projeto do Peixe-Boi e da Ariranha, animais com sério risco de extinção, além do setor dos insetos, com uma coleção formidável, incluindo o maior besouro do mundo e mariposas com mais de 20 cm de envergadura. Este é o prinipal centro de referência de pesquisa da Amazônia.
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Ao longo de três dias, fomos muito bem recebidos na Abra 144 (Aldeia Bio-Regional da Amazônia) que é uma ecovila que busca a auto-suficiência através da produção em pequena escala e busca artifícios de cooperação para se manter. O lugar fica no alto de um imenso vale, que nos presenteia com uma vista magnífica da floresta com sua paz característica. Na volta curtimos um dia em Presidente Figueiredo, o município brasileiro com o maior número de cachoeiras. Visitamos a Cachoeira da Orquídea e celebramos a vida nos banhando em suas águas escuras.
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A seguir, o IPA (Instituto de Permacultura da Amazônia). Lá foi possível conhecer na prática diversas ações efetivas de permacultura. Todas as construções, cultivos e criações buscam o consórcio com o que o ecossistema oferece. A sustentabilidade será fruto do melhor aproveitamento da energia e dos recursos naturais. Por exemplo, lá existem apenas banheiros secos, que não utilizam água para descarga, mas sim um sistema de tratamento das fezes, que a partir do calor do sol as transforma em adubo. Também toda a água é captada das chuvas através de diversas cisternas, num perfeito reaproveitamento da matéria. Respeitando aquela lei universal de que na natureza nada se cria, tudo se transforma.
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Cruzamos com diversas pessoas que estão trabalhando para presevar a Floresta Amazônica. As opiniões divergem um pouco, mas o otimismo é raro de se encontrar. A maior parte das pessoas aponta com tristeza a devastação que está ocorrendo e já começam as previsões para o fim deste ecossistema. Claro que o maior problema é a extração da madeira e a derrubada da mata para criação de gado e cultivo de soja. A lição que tiramos é que depende de cada um de nós.
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Agora, vamos começar a descer o maior rio do mundo em direção a Belém.
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http://www.inpa.gov.br/
http://www.abra144.org/
www.permacultura.org.br/rbp/index800.html